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Folha em Branco

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Seg | 06.02.12

Entrevista: Victor Domingos

O autor que vos trago hoje é Victor Domingos a quem mais uma vez, agradeço a disponibilidade.1- Olá Victor, é um nome novo para muitas pessoas, o que nos pode dizer sobre si?Chamo-me Victor Domingos, nasci e cresci em Arcos de Valdevez e moro atualmente em Braga. Estudei Psicologia e, de entre as diversas atividades em que me fui envolvendo ao longo da vida, desde há muito que me dedico também à leitura e à escrita. Gosto particularmente de poesia. Sou um grande admirador de poetas como Fernando Pessoa e Drummond de Andrade. Curiosamente, e apesar de “secretamente” me dedicar mais à escrita de poesia do que de narrativa, é sobretudo nesta última vertente que os meus livros têm conseguido obtiver algum reconhecimento público...

2- Tem neste momento três trabalhos, o que nos pode dizer sobre eles?São três narrativas curtas, cuja ação se focaliza mais na experiência emocional das personagens do que no simples relato de uma sucessão de acontecimentos. Como dizia há pouco, sempre me inclinei mais para a escrita de poesia. Mas pontualmente fui escrevendo alguma narrativa, a pretexto de concursos literários que tomei como desafios. Foi assim que surgiram, em diferentes momentos, estes três livros que recentemente decidi reeditar em formato digital.

“Ode a Um Poeta Naturalista” é um livro que escrevi no final dos anos 90, no final da adolescência, um pouco impulsionado pelo objetivo de concorrer ao 1º Prémio Literário Teixeira de Queiroz. Nessa altura, eu acabava de descobrir os poetas de Orpheu e da Presença e também uma série de vivências pessoais muito marcantes. O projeto entusiasmou-me bastante e, durante algum tempo,  andei embrenhado na sua escrita. Acho que no final resultou um estilo marcadamente experimental, em que a narrativa se entrelaça com elementos poéticos e expressões do âmbito musical. Por um lado, nota-se perfeitamente que eu ainda procurava ajustar-me à “ferramenta” que estava a utilizar mas, por outro lado, foi um livro que serviu para definir aquilo que me interessava em primeiro lugar - as pessoas e as suas vivências íntimas.

O tema para a novela “Manual de Trigonometria Aplicada” surgiu, indiretamente, a partir do lema de um outro concurso literário em que participei (“Ecos da Memória”). Uma vez mais, quis experimentar livremente a técnica narrativa - desta vez através de um conjunto de cartas que são intercaladas com algumas cenas da vida de um engenheiro. Ao início essas cartas são um pouco enigmáticas e os eventos narrados parecem desconexos, mas no final todos os elementos dispersos de certa forma confluem para esclarecer o desenrolar a história. Ainda assim, e tal como aconteceu com o livro anterior, há aspetos que voluntariamente decidi deixar a pairar na mente do leitor. Alguns leitores dirão talvez que será vício de quem está mais acostumado a escrever poesia - e acho que é mesmo - mas creio que é uma técnica que permite a textos pouco  extensos ganhar alguma densidade e uma profundidade que, na minha opinião, dificilmente se consegue com um estilo de relato mais direto.

Finalmente, “As Confissões de Dulce” nasceram a pretexto do Concurso Nacional de Contos D. Sancho I. O tema proposto era o segundo rei de Portugal mas, nesta minha narrativa, eu decidi colocá-lo em segundo plano e destacar como personagem principal a sua esposa, a rainha D. Dulce. Afinal de contas, quem disse que a nossa história se fez só de homens...? Eu acho que o papel das mulheres no rumo da história tem sido subestimado. Pode parecer cliché, mas costuma-se dizer que... por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. Dito isto, quem tiver lido o meu livro já saberá que não se trata de uma apologia cega das virtudes femininas. Mas não quero trazer para aqui nenhum spoiler...

3- Porquê adoptar a auto publicação digital e não a forma mais "convencional"?Por vários motivos... Ao publicar em formato digital, a edição ganha de imediato uma dimensão global, não tendo a sua tiragem limitada por constrangimentos financeiros ou de logística. Assim, os meus livros são atualmente distribuídos para praticamente todo o mundo, em simultâneo. Basta haver um leitor interessado, em qualquer lugar. Sei que há pessoas a ler os meus livros no Brasil e em Espanha, por exemplo. Com uma edição em papel, distribuir os livros para esses países seria bem mais complexo.Por outro lado, há uns anos atrás tive uma experiência um tanto ou quanto esclarecedora com a edição em papel da minha novela “Manual de Trigonometria Aplicada”. O livro foi devidamente distribuído pelas livrarias, mas verifiquei que na prática tinha pouca visibilidade. É que o espaço de prateleira custa dinheiro, pelo que os livros de autores menos conhecidos tendem a perder-se na imensidão de lombadas nas estantes... Além disso, quando um livro desses esgota, nem sempre compensa fazer uma nova tiragem.Com a edição digital, tive uma experiência diametralmente oposta. Sei à partida que as obras não esgotam, porque não dependem de um suporte físico como os livros em papel. E consegui obter durante algum tempo uma exposição considerável na Apple iBookstore, uma das livrarias digitais de referência. Para além de as capas dos meus três livros terem sido destacados com excelente visibilidade nas secções “What’s hot” e “New & noteworthy”, as obras “Ode a Um Poeta Naturalista” e “As Confissões de Dulce” têm vindo a conseguir por diversas ocasiões uma excelente exposição no top de vendas português. Foi ótimo ver os meus livros assim destacados, lado a lado com nomes tão sonantes como os de José Saramago, Haruki Murakami ou António Lobo Antunes.Com o desenvolvimento de suportes digitais como o Kindle, o iPad e o iPhone, entre outros, e com a generalização do acesso a plataformas de distribuição de ebooks para todos eles, penso que chegámos finalmente a uma época de viragem. O livro digital conseguiu ganhar finalmente uma relevância que era quase impensável há cinco ou dez anos atrás. É uma verdadeira revolução que está a acontecer no meio editorial!...Quanto à modalidade de auto publicação, teve a ver com o facto de me parecer exequível. Não estava preso a nenhum contrato editorial, e achei tinha o know-how suficiente para fazer uma edição digital bem sucedida, sem depender de terceiros. Claro que me deparei com várias dificuldades, e verifiquei afinal que ainda havia muito para aprender (por exemplo, em áreas como o design ou o marketing). A auto publicação requer um grande investimento de tempo e dedicação, mas encaro este desafio como uma oportunidade de aprendizagem preciosa.

4-  O que é que o inspira mais para escrever?São as pessoas. E as relações entre elas, e as relações com elas próprias. No fundo, tudo gira à volta da forma como nos vemos, como nos relacionamos connosco próprios e com o mundo que no rodeia. É isso que me inspira.

5- O que tem planeado para o futuro?Num plano mais imediato, estou a finalizar este projeto da reedição dos livros que tinha publicado anteriormente. Para além destas três novelas, ou short stories, falta-me voltar a disponibilizar um livro de poesia intitulado "É Preciso Calar o Monólogo". Esse livro deverá sair dentro de cerca de um mês.A médio prazo, algures entre 2012 e 2013, estou a pensar em publicar um segundo volume de poesia que reunirá alguma produção um pouco mais recente, mas esse ainda se encontra numa fase embrionária.Entretanto, vou tendo algumas ideias interessantes que gostaria de pôr em prática, nomeadamente em termos de interação com os leitores. No entanto, prefiro não entrar em mais detalhes, enquanto as ideias não ganham uma forma mais definida na minha mente. Um passo de cada vez...Não quero terminar sem antes agradecer o convite e a oportunidade de vir aqui partilhar um pouco sobre o meu trabalho literário. Muito obrigado, Alexandra!

Podem encontrar os livros deste autor aqui e dentro de momentos um passatempo.Site oficial do autor: http://victordomingos.com 

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