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Folha em Branco

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Dom | 19.01.14

Começou a caça ao trajado

Aconteceu uma tragédia, as vidas de vários jovens estudantes universitários perderam-se numa noite, numa praia. São muitos os artigos que têm sido escritos nos meios de comunicação e são muitas as opiniões dadas pelas pessoas em geral.

Eu pensei em fazer um vídeo post mas meia hora e cinco tentativas depois desisti e decidi sentar-me em frente ao computador para escrever. Talvez assim consiga passar, um pouco melhor, o que tenho a dizer sobre este assunto. Sim, porque não posso nem consigo ficar calada. Sinto, mesmo, a necessidade de comentar este tema e não com um mini post. Não é por mim, mas por muitos estudantes universitários que estou neste momento a escrever isto. É a caça às bruxas aos trajados all over again. Normalmente isto só acontece por volta de Setembro / Outubro, altura em que se inicia um novo ano escolar e chegam aos canais televisivos notícias sobre a praxe e a dita tradição académica.

Eu digo sem vergonha ou medo, fui praxada, praxei e uso o meu traje com muito orgulho e respeito.

De um grupo de estudantes universitários apenas um sobreviveu, apenas um tinha o telemóvel consigo e todos os pertences foram arrumados nos respectivos sacos. Sabe-se também que tinham estado num barzinho antes de ir para a praia ainda trajados. Agora as famílias das vítimas querem processar o rapaz que escapou e que é também o Dux daquela universidade. Pelos vistos existe também um código de silêncio entre os alunos que ninguém quebra.

Eu pergunto porquê processá-lo, os outros eram jovens indefesos que não sabiam dizer não? Estando a ser praxados porque estariam completamente trajados e não sem a capa e batina?
Na praxe ninguém é obrigado a nada. Não gostam dizem que não e vão embora. Se ficam sujeitam-se mas ninguém tem uma arma apontada à cabeça. Quando chegamos à Universidade somos já adultos, se não sabem dizer a palavra "não" então estão basicamente lixados para o resto da vida...

Se calhar fui só eu (sei que não), mas tive uma experiência bastante boa (e saudável) durante a praxe. Deram-me a opção de sair se não gostasse, não fui humilhada, mal tratada ou obrigada a saltar para uma estrada na hora de ponta ou a beber até ficar em coma. Joguei à cabra cega, joguei ao mata com balões de água, brinquei aos cabeleireiros com farinha e açúcar (sem ovos) e cantei e gritei até ficar afónica. Obrigaram-me a beber água e a comer a meio da tarde porque estava calor. O almoço na cantina é que era chato porque ou comíamos à mão ou com a colher de plástico da sobremesa.

Na verdade tive uma vez, no meu terceiro ano de licenciatura, problemas durante a praxe. Uns espertinhos do MATA (Movimento Anti Tradição Académica), ou de uma versão extremista do mesmo, decidiu atirar ovos sobre os caloiros (engraçado não é?). Mas não, os trajados é que são os alunos baldas que só querem saber das idas aos copos, que são pessoas mesquinhas, vingativas e tristes. São esses que se vingam, do que sofreram, nos caloiros.

Não digo que todas as pessoas tenham tido a mesma experiência que eu. Sei que há exageros e acontecem coisas vergonhosas em várias universidades. No entanto, dizer que todos os que fazem parte da praxe são pessoas más, mesquinhas e vingativas, é o mesmo que dizer que todos os que bebem uma cerveja são alcoólicos. Vamos impedir que as pessoas com idades inferior a 25 anos tirem a carta porque pelos vistos são as que mais acidentes têm...

 

Infelizmente quem pode dizer algo mais está, pelos vistos, em silêncio e nada resta a não ser esperar por um esclarecimento do que aconteceu naquela noite.

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